quarta-feira, outubro 06, 2004

A Fala do Velho do Restelo ao Astronauta

Aqui na terra a fome continua
A miséria e o luto
A miséria e o luto e outra vez a fome
Acendemos cigarros em fogos de napalm
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza.
Ou talvez da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti nem eu sei que desejos
De mais alto que nós, de melhor e mais puro.
No jornal soletramos de olhos tensos
Maravilhas do espaço e de vertigem.
Salgados oceanos que circundam
Ilhas mortas de sede onde não chove.
Mas a terra, astronauta, é boa mesa
(E as bombas de napalm são brinquedos)
Onde come brincando só a fome
Só a fome, astronauta, só a fome.
José Saramago

terça-feira, outubro 05, 2004

O pôr do sol.

O pôr do sol. Na verdade, são raras as vezes que paro para presenciar este espectáculo diário. A luz está a deixar-nos. O disco solar apresenta agora um tom mais escuro, menos ofuscante, e desenha uma estrada de luz no rio. Será a estrada de tijolos amarelos do país de Oz? O sol no ocaso, apaga-se em fim, na estrada amarela vejo a Noite caminhar num passo constante e ritmado. Está a chegar.

Agora é manhã.

Agora é manhã. O candeeiro apagado reflecte agora a luz do sol, redondo e amarelo na abobada celestial. A rua parece agora mais segura. Já não há gatos. Estarão a dormir?
O calor da manhã faz-me sentir bem. Uma nuvem passa vagarosa, leve e branca. Para onde irá?

Já é Noite.

Ó retrato da Morte! Ó Noite amiga,
Por cuja escuridão suspiro há tanto!
Calada testemunha de meu pranto,
De meus desgostos secretária antiga!

Pois manda Amor que a ti sòmente os diga
Dá-lhes pio agasalho no teu manto;
Ouve-os, como costumas, ouve, enquanto
Dorme a cruel que a delirar me obriga.

E vós, ó cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos, como eu, da claridade!

Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade,
Quero fartar o meu coração de horrores.
Bocage

Já é noite, os gatos fazem barulho lá fora, de olhos cintilantes que se movem no negro fundo.
Apenas a luz tremula de um candeeiro ilumina a deserta rua. Nada se vê nada se sente, através da cortina de breu. Chego-me mais para a janela, uma brisa gela-me o rosto. Como é bela e aconchegante sem deixar de ser fria e misteriosa…


domingo, outubro 03, 2004

No Psicólogo... (II)

Psicólogo: Bom dia Kripton, como está hoje?
Kripton: Bem, como sempre. Sempre estive bem.
Psicólogo: Fico contente por ouvir isso. Dizias-me no outro dia, citando Goether: “ é pena que a natureza tenha feito de ti um único homem, pois haveria matéria para um homem digno e um patife”
Kripton: Sim. Sinto uma tremenda confusão dentro da minha mente, há demasiada matéria em erupção para apenas um vulcão.
Psicólogo: É assim que define a sua mente, como um vulcão.
Kripton: Sim, os pensamentos em ebulição agitam-se, por vezes com tal energia que não os posso suportar.
Psicólogo: Que tipos de pensamentos costuma ter?
Kripton: Na verdade não são diferentes pensamentos, são… diferentes “almas” que possuo
Psicólogo: Diferentes almas?
Kripton: Sim, como se diferentes pessoas vestissem a minha pele
Psicólogo: Há quanto tempo apresenta essa… característica?
Kripton: Desde sempre, desde que me lembro de existir.
Psicólogo: descreva-se o que passa pela sua mente neste momento…
Kripton: Apetece-me voar… como um pássaro… sei que posso… sou diferente… tenho asas
Psicólogo: Para onde vai? Saia do parapeito da janela, tente acalmar os seus pensamentos!
Kripton: EU POSSO VVOOAAAAAAAAAAAAAAAAARRRRRR!!!!!!!!!

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