terça-feira, fevereiro 22, 2005

A, T, G, C…

Letras recombinadas
Pares que traduzidos
Somos nos
Possuímos assim
O melhor e pior
Dos nossos pais e avós

Código milenar
Livro das vidas
Paginas
Milhões de vezes traduzidas.
Que há tão pouco foram lidas.

É simples como Morse
Natural como cada um de nós
Cada erro traduzido
Pode calar-nos a voz

Mas a natureza é perfeita
E em frameshift
Eficiente
Corrige a transcrição
De cada codão
Deficiente

Tão natural é o erro
(sem ele não seríamos assim)
Algumas vezes corrigido
Para chegarmos aqui.

Mas o processo, sem parar
Perpetuo, incasável, veloz.
Em cada núcleo celular
Replíca
Transcreve
Traduz
Esse dicionário
Com quatro letras
Que afinal somos nós.

AJP

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

A Metaphysical Drama

Revealed are the legends coronal
In a fiery illusion
An esoteric festival
The logical is trapped in confusion

Unmasked are theorems of invocation
Consigned to the thirsty soul
Parallel dimension's fragmentation
With a stronghold in a black hole

Where phantoms channel the connection
In a metaphysical drama
Like Maxwell's demon if taught to perfection
My eyes, the soul's panorama

At childhood I felt a concealed motion
(wisdom through the mother's milk)
Waves in the interstellar ocean,
Shapes under veils of silk

Still they let me feel their presence
The archetype around me, inside me
In every atom and second their essence
As well as in the vibration frequency of the open sea

Rainbows in colours never seen
In symbioses with Nordic light that flashes in green

In rapids of blood glorious
And in the reckless fire victorious
I can trace their mark


Vintersorg (Visions From The Spiral Generator)

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

Era eu

Uma vez que alguns bloguistas amigos começaram a apresentar nos seus blog as fotos de quando eram pequeninos, aqui esta a minha. Confesso que tenho algumas saudades daquele tempo. Como é que, á relativamente pouco tempo, eu tinha pouco mais que meio metro de altura e agora… a vida é fascinante não é?


sábado, fevereiro 12, 2005

To the Virgins, to Make Much of Time

Gather ye rosebuds while ye may,
Old Time is still a-flying:
And this same flower that smiles to-day
To-morrow will be dying.

The glorious lamp of heaven, the sun,
The higher he's a-getting,
The sooner will his race be run,
And nearer he's to setting.

That age is best which is the first,
When youth and blood are warmer;
But being spent, the worse, and worst
Times still succeed the former.

Then be not coy, but use your time,
And while ye may, go marry:
For having lost but once your prime,
You may for ever tarry

Robert Herrick

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

Sherlock Holmes, 1890

Sherlock Holmes tirou o frasco do canto da prateleira do fogão e a seringa hipodérmica do seu arrumado estojo de marroquim. Com os seus dedos longos, braços, nervosos, ajustou a delicada agulha e arregaçou a manga esquerda da camisa. Durante alguns instantes fitou pensativamente o antebraço e o pulso, com tendões salientes e cheios de marcas e cicatrizes das inúmeras picadas. Por fim, espetou certeiramente a ponta aguçada, comprimindo o pequeno êmbolo e afundando-se nos estofos de veludo da cadeira de braços, soltando um longo suspiro de satisfação.

Três vezes por dia, desde há muitos meses, eu presenciava este acto, mas o hábito não levara o meu espírito a aceita-lo. Pelo contrário, de dia para dia aquela cena irritava-me cada vez mais, e pesava-me a consciência ao pensar que me faltara a coragem para protestar. Uma e outra vez jurara a mim próprio que desabafaria acerca do assunto; mas aquele ar calmo e indiferente do meu companheiro fazia dele a última pessoa com quem se desejaria ser inconveniente. As suas enormes faculdades, o ar magistral e a experiência que já tivera das suas muitas extraordinárias qualidades, tudo me fazia encarar com hesitação e reserva qualquer controvérsia.

Naquela tarde, contudo, não sei se por causa do Beaune que bebera ao almoço, se por estar mais exasperado devido á extrema premeditação da sua atitude, senti repentinamente que não me podia calar por maias tempo.

− Hoje o que é – perguntei −, morfina ou cocaína?

Levantou os olhos languidamente do velho livro que abrira.

− É cocaína – respondeu −, uma solução a sete por sento. Quer experimentar?

− Claro que não – respondi bruscamente. – O meu organismo ainda não recuperou a campanha afegã. Não me posso dar ao luxo de o submeter a um esforço suplementar.

Sorriu perante a minha veemência.

− Talvez tenha razão, Watson. Creio que a influência da cocaína é fisicamente prejudicial. Acho-a, no entanto tão transcendentemente estimulante e esclarecedora para o espírito que os seus efeitos secundários deixam de ter grande importância.

− Mas repare! – Disse eu seriamente. – Quantos inconvenientes! O seu cérebro, como afirma, pode ficar desperto e excitado, mas trata-se de um processo patológico e mórbido que envolve uma elevada substituição de tecidos e pode, pelo menos, provocar uma permanente fraqueza. Sabe também como é negativa a reacção posterior. Na verdade, o jogo é demasiado arriscado para valer a pena. Por que há-de, para obter um mero prazer passageiro, arriscar-se a perder as preciosas faculdades com que foi dotado? Lembre-se que falo não apenas como amigo, mas também como médico, tendo em conta que, de algum modo, sou responsável pela sua saúde.

(...)

− O meu espírito – disse – não suporta a estagnação. Dêem-me problemas, dêem-me trabalho, dêem-me o mais abstracto criptograma, ou a análise mais intrigante, e sinto-me na atmosfera que me é própria. Posso então dispensar estimulantes artificiais. Mas abomino a monótona rotina da existência (…).

Conan Doyle, Sir Arthur; Obras de Sir Arthur Conan Doyle: O Sinal Dos Quatro; Publicações Europa-America; pp. 9-11

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

Livro Útil

Palpita-me que este livro vai ser bastante lido nos próximos tempos.

terça-feira, fevereiro 08, 2005

Momento

Já de madrugada
No jardim onde
Os pássaros cantam
Sente-se o aroma da pálida Primavera.
E o passar do tempo
É irrisório
Horas, minutos, segundos
Compara-los ao sempre
E ao eterno.
Hade parecer-te um dia

Tudo o que estás a fazer é inútil.
E tudo o que fizeste de nada serve
Senta-te e aproveita o momento.
Não levantes os olhos para apreciar o horizonte,
Ele sempre hade estar ali quando voltares.

Amanha de manhã
Se o sol nascer.
Espera o dia seguinte sem pressa.
Não procures o impossível;
Aproveita o simples, o belo, o fugaz.

Terás muito tempo para apreciar
A eternidade quando dela fizeres parte.

Não desesperes por nada
Nem por quase tudo.
Esse tudo ou quase nada
Não te pode acompanhar para onde vais.
Aproveita a tua passagem pelo jardim
E caminha tranquilamente sem olhar para trás,
(mesmo quando o Inverno chegar)
Respira fundo e não corras,
Vais ter todo o tempo
Quando chegares.

AJP

domingo, fevereiro 06, 2005

Luzinhas de Debate

O país está a assistir a uma campanha pre-eleitoral no mínimo Sui generis. Levantam-se boatos que ninguém se atreve a dizer quais são em frente a uma câmara e a autoria destes boatos é atribuída por cada candidato ao seu “Arqui-inimigo” (sempre que falam de boatos, fazem-me lembrar o Otavio Machado: “Vocês sabem de que é que eu estou a falar!”)
Enfim, a campanha vai de vento em poupa mas, propostas, ideias e programas concretos que se poção ser mostrados e explicados ao eleitorado é que nem velos.
No passado dia 3 as 20:30 tiveram lugar o tão aguardado debate que foi difundido simultaneamente pela SIC e ADOIS, e opôs Santana Lopes (PSD e actual primeiro ministro) a Sócrates (PS).
O sistema de debate utilizado foi o modo americano em que o tempo de resposta a perguntas e a replica do outro candidato á respostas do seu adversário é controlado ao segundo.
Para esse efeito existiam no cenário umas luzinhas a acender e a apagar. Quando vi aquilo pensei que estava a dar o Quem quer Ser Milionário ou o Um, Dois, Três mas como não vi o Jorge Gabriel nem a Teresa Guilherme mudei de ideias.
Não achei piada nenhuma a este sistema (não viesse ele dos EUA, exemplo mundial no que diz despeito a eleições!), no final do debate com tanta poupança de tempo ficaram por discutir assuntos tão fulcrais como a Saúde e a Educação (a menos que Portugal não tenha qualquer problema neste campo! O que não me parece).
Tivemos a oportunidade de ver Sócrates a tentar esboçar algumas ideias do seu programa que na verdade não passa disso mesmo, de um esboço. E Santana Lopes (com as olheiras da noitada disfarçadas pela maquilhagem) a tirar números, percentagens e gráficos da cartola utilizando a sua hábil retórica para responder sem responder a perguntas que o incomodavam.
No fundo os portugueses ficaram na mesma (exceptuando a historia dos “boatos” que ocupou aí uns 20 minutos. Ridículo!) Outro debate é necessário mas desta vez á portuguesa.

E concluo com uma pequena rima:

“ (…) E no Carnaval,
Com eleições na manga,
Vai ser dois em um,
Samba e muita tanga.”

sábado, fevereiro 05, 2005

"A arte da parteira"

SÓCRATES - Pois bem, pobre inocente, nunca ouviste dizer que sou filho da Fenarete, parteira muito hábil e de grande nomeada?

TEETETO - Sim, já ouvi dizer.

SÓCRATES - E não ouviste dizer também que eu exerço a mesma profissão?

TEETETO - Não.

SÓCRATES - Pois fica sabendo que é verdade, mas não o digas a mais ninguém. Os outros ignoram, meu caro, que possuo esta arte e é por isso que lhe não fazem referência quando falam de mim. Dizem que sou um homem extravagante, e só tenho habilidade para confundir toda a gente, a propósito de tudo. Nunca ouviste dizê-lo?

TEETETO - Sim.

SÓCRATES - Queres saber porquê?

TEETETO - Sim, dize.

SÓCRATES - Lembra-te do que acontece com as parteiras, e compreenderás mais facilmente o que quero dizer. Como sabes, nenhuma delas se ocupa do parto de outras mulheres enquanto pode conceber e ter filhos, e só exercem essa profissão quando já não podem procriar.

TEETETO - É certo.

SÓCRATES - Diz-se que este costume provém de Artemisa, que foi encarregada de presidir aos partos sem nunca ter dado -à luz. Ela não quis que as mulheres estéreis fossem parteiras, porque a natureza humana é demasiado fraca para exercer uma arte de que não tem experiência nenhuma; e reservou essas funções às mulheres que já tinham passado a idade de procriar para honrar a semelhança que tinham com ela.

TEETETO - É provável.

SÓCRATES - Não é também provável, e necessário até, que as parteiras conheçam melhor que ninguém se uma mulher está grávida ou não?

TEETETO - Certamente.

SÓCRATES - Além disso, por meio de drogas e de sortilégios, sabem apressar o momento do parto e amortecer as dores, quando querem ; fazem dar à luz as que têm dificuldade, e provocam o aborto se julgam conveniente.

TEETETO - É exacto.

SÓCRATES - Entre as suas aptidões, nunca notaste que são boas casamenteiras, porque sabem que homem e que mulher se devem unir para ter filhos robustos ?

TEETETO –Não, aí está uma coisa que eu não sabia.

SÓCRATES - Pois podes ter a certeza de que se orgulham mais desta aptidão do que de saberem cortar o cordão umbilical. Realmente, pensa um pouco: julgas que a arte de cultivar e colher os frutos da terra é a mesma que faz conhecer em que terra se deve cultivar determinada planta ou semente, ou supões que é diferente?

TEETETO - Não são artes diferentes : é a mesma.

SÓCRATES - E em relação à mulher, meu caro, supões que a arte de semear e a de colher são diferentes ?

TEETETO - Não é provável.

SÓCRATES - Não, realmente. Mas como há uma forma desonesta e arbitrária de acasalar o homem e a mulher de que se encarregam certos medianeiros, as parteiras, ciosas da sua reputação, não querem interferir nos casamentos com receio das censuras que se fazem aos outros medianeiros. No entanto, só as parteiras dignas deste nome podem fazer uma boa distribuição dos casamentos.

TEETETO - Assim parece.

SÓCRATES - Tal é, pois, o oficio das parteiras, que é inferior ao meu. Efectivamente as mulheres não podem dar à luz umas vezes quimeras e outras vezes seres autênticos, o que não é fácil distinguir. Se isso acontecesse, o maior e o mais belo trabalho das parteiras seria distinguir o verdadeiro do falso. Não te parece?

TEETETO - Sim.

SÓCRATES - A minha arte de parteiro compreende todas as funções que as parteiras desempenham, com a diferença que se exerce sobre homens e não sobre mulheres, cuida das almas e não dos corpos. A principal vantagem da minha arte é permitir-me distinguir, com segurança, se o espírito de um rapaz dá à luz uma quimera e uma falsidade, ou um fruto real e verdadeiro. Por outro lado, tenho de comum com as parteiras o ser estéril em matéria de sabedoria; por isso tem fundamento a censura que me fazem muitas vezes de interrogar os outros sem nunca emitir opinião acerca de nenhuma coisa, porque nada sei. E procedo assim porque o deus me impõe o dever de ajudar os outros a dar à luz, mas não me permite parir. É por isso que não possuo sabedoria e não posso gabar-me de nenhuma descoberta que a minha alma tenha produzido. Em compensação, aqueles que convivem comigo, embora a princípio pareçam ignorantes, fazem maravilhosos progressos à medida que recebem a minha influência, se o deus assim lhes permite, não só na sua opinião, mas também na dos outros. É claro, como o dia, que não aprendem nada comigo e encontram em si mesmos as belas coisas que dão à luz; mas, se as conceberam, foi graças ao deus e a mim. Queres a prova disso? Muitos rapazes, desconhecendo o valor da minha assistência e atribuindo a si mesmos os seus progressos, abandonaram-me antes de tempo, quer por instigação alheia, quer de livre vontade. Longe de mim, sob a influência de maus mestres, abortaram todos os gérmenes que traziam em si; e àqueles que eu lhes fiz dar à luz, mal alimentados, deixaram-nos perecer, porque faziam mais caso de mentiras e de vãs aparências do que da verdade, e acabaram por parecer ignorantes a seus próprios olhos e aos dos outros. Arístides, filho de Lisímaco, foi um deles, e há muitos mais. Quando voltam e me pedem insistentemente para os receber no meu grupo, o meu espírito familiar proíbe-me que aceite alguns e permite-me que aceite outros; estes últimos tiram proveito, como da primeira vez. Aqueles que convivem comigo assemelham-se ainda num ponto às parturientes : sentem as dores do parto e experimentam, dia e noite, inquietações mais vivas que as das mulheres. Mas a minha arte é capaz de despertar essas dores e de as fazer cessar. Eis o que faço àqueles que convivem comigo. Alguns há, porém, Teeteto, cujas almas não me parecem prenhes; e, quando reconheço que não precisam de mim, intercedo por eles com todo o carinho, e, graças ao deus, descubro facilmente a quem devo confiá-los. É assim que tenho confiado muitos a Pródico e a outros homens sábios e divinos. Tenho-me alongado tanto nestas considerações, meu caro Teeteto, porque julgo, embora tu duvides, que a tua alma está prenhe e em trabalho de parto. Confia-te, pois, aos meus cuidados, lembrando-te de que sou filho duma parteira e hábil nesse ofício. Quando te fizer perguntas, procura responder o melhor que puderes; e se, depois de examinar a tua resposta, entender que é um fantasma sem realidade, e se o extirpar e deitar fora, não te aborreças comigo, como fazem as mulheres que são mães pela primeira vez. Tenho visto muitos, meu caro amigo, tão irritados contra mim que até eram capazes de me morder por lhes ter tirado qualquer opinião extravagante. Não compreendem que é por benevolência que o faço. Ignoram que nenhuma divindade quer mal aos homens e que eu também não procedo assim por má vontade, mas sim porque não me é permitido, de modo nenhum, aceitar o que é falso nem ocultar o que é verdadeiro. Voltemos, pois, ao princípio e procura dizer-me em que consiste a ciência. Nunca me digas que não és capaz, porque, se o deus quiser e te der coragem, consegui-lo-ás.

TEETETO - Na verdade, Sócrates, assim encorajado por ti, era uma vergonha não empregar todos os esforços para te dizer o que penso. Parece-me que todo aquele que sabe uma coisa sente aquilo que sabe e, segundo julgo neste momento, a, ciência não é mais do que a sensação.

Platão, Teeteto (trad. de A. Lobo Vilela), Lisboa: Seara Nova, 1947, pp. 25-30

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

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E cá está! O meu ambiente de trabalho. É a partir daqui que o Andromeda é contruido.

quarta-feira, fevereiro 02, 2005

Escrita

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terça-feira, fevereiro 01, 2005

Terra

Êxtase

Terra, minha medida!
Com que ternura te encontro
Sempre inteira nos sentidos,
Sempre redonda nos olhos,
Sempre segura nos pés,
Sempre a cheirar a fermento!
Terra amada!
Em qualquer sítio e momento,
Enrugada ou descampada,
Nunca te desconheci!
Berço do meu sofrimento,
Cabes em mim, e eu em ti!

Miguel Torga
in Diário XI


Foto de Sebadelhe - Vila Nova de Foz Côa
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