sábado, fevereiro 05, 2005

"A arte da parteira"

SÓCRATES - Pois bem, pobre inocente, nunca ouviste dizer que sou filho da Fenarete, parteira muito hábil e de grande nomeada?

TEETETO - Sim, já ouvi dizer.

SÓCRATES - E não ouviste dizer também que eu exerço a mesma profissão?

TEETETO - Não.

SÓCRATES - Pois fica sabendo que é verdade, mas não o digas a mais ninguém. Os outros ignoram, meu caro, que possuo esta arte e é por isso que lhe não fazem referência quando falam de mim. Dizem que sou um homem extravagante, e só tenho habilidade para confundir toda a gente, a propósito de tudo. Nunca ouviste dizê-lo?

TEETETO - Sim.

SÓCRATES - Queres saber porquê?

TEETETO - Sim, dize.

SÓCRATES - Lembra-te do que acontece com as parteiras, e compreenderás mais facilmente o que quero dizer. Como sabes, nenhuma delas se ocupa do parto de outras mulheres enquanto pode conceber e ter filhos, e só exercem essa profissão quando já não podem procriar.

TEETETO - É certo.

SÓCRATES - Diz-se que este costume provém de Artemisa, que foi encarregada de presidir aos partos sem nunca ter dado -à luz. Ela não quis que as mulheres estéreis fossem parteiras, porque a natureza humana é demasiado fraca para exercer uma arte de que não tem experiência nenhuma; e reservou essas funções às mulheres que já tinham passado a idade de procriar para honrar a semelhança que tinham com ela.

TEETETO - É provável.

SÓCRATES - Não é também provável, e necessário até, que as parteiras conheçam melhor que ninguém se uma mulher está grávida ou não?

TEETETO - Certamente.

SÓCRATES - Além disso, por meio de drogas e de sortilégios, sabem apressar o momento do parto e amortecer as dores, quando querem ; fazem dar à luz as que têm dificuldade, e provocam o aborto se julgam conveniente.

TEETETO - É exacto.

SÓCRATES - Entre as suas aptidões, nunca notaste que são boas casamenteiras, porque sabem que homem e que mulher se devem unir para ter filhos robustos ?

TEETETO –Não, aí está uma coisa que eu não sabia.

SÓCRATES - Pois podes ter a certeza de que se orgulham mais desta aptidão do que de saberem cortar o cordão umbilical. Realmente, pensa um pouco: julgas que a arte de cultivar e colher os frutos da terra é a mesma que faz conhecer em que terra se deve cultivar determinada planta ou semente, ou supões que é diferente?

TEETETO - Não são artes diferentes : é a mesma.

SÓCRATES - E em relação à mulher, meu caro, supões que a arte de semear e a de colher são diferentes ?

TEETETO - Não é provável.

SÓCRATES - Não, realmente. Mas como há uma forma desonesta e arbitrária de acasalar o homem e a mulher de que se encarregam certos medianeiros, as parteiras, ciosas da sua reputação, não querem interferir nos casamentos com receio das censuras que se fazem aos outros medianeiros. No entanto, só as parteiras dignas deste nome podem fazer uma boa distribuição dos casamentos.

TEETETO - Assim parece.

SÓCRATES - Tal é, pois, o oficio das parteiras, que é inferior ao meu. Efectivamente as mulheres não podem dar à luz umas vezes quimeras e outras vezes seres autênticos, o que não é fácil distinguir. Se isso acontecesse, o maior e o mais belo trabalho das parteiras seria distinguir o verdadeiro do falso. Não te parece?

TEETETO - Sim.

SÓCRATES - A minha arte de parteiro compreende todas as funções que as parteiras desempenham, com a diferença que se exerce sobre homens e não sobre mulheres, cuida das almas e não dos corpos. A principal vantagem da minha arte é permitir-me distinguir, com segurança, se o espírito de um rapaz dá à luz uma quimera e uma falsidade, ou um fruto real e verdadeiro. Por outro lado, tenho de comum com as parteiras o ser estéril em matéria de sabedoria; por isso tem fundamento a censura que me fazem muitas vezes de interrogar os outros sem nunca emitir opinião acerca de nenhuma coisa, porque nada sei. E procedo assim porque o deus me impõe o dever de ajudar os outros a dar à luz, mas não me permite parir. É por isso que não possuo sabedoria e não posso gabar-me de nenhuma descoberta que a minha alma tenha produzido. Em compensação, aqueles que convivem comigo, embora a princípio pareçam ignorantes, fazem maravilhosos progressos à medida que recebem a minha influência, se o deus assim lhes permite, não só na sua opinião, mas também na dos outros. É claro, como o dia, que não aprendem nada comigo e encontram em si mesmos as belas coisas que dão à luz; mas, se as conceberam, foi graças ao deus e a mim. Queres a prova disso? Muitos rapazes, desconhecendo o valor da minha assistência e atribuindo a si mesmos os seus progressos, abandonaram-me antes de tempo, quer por instigação alheia, quer de livre vontade. Longe de mim, sob a influência de maus mestres, abortaram todos os gérmenes que traziam em si; e àqueles que eu lhes fiz dar à luz, mal alimentados, deixaram-nos perecer, porque faziam mais caso de mentiras e de vãs aparências do que da verdade, e acabaram por parecer ignorantes a seus próprios olhos e aos dos outros. Arístides, filho de Lisímaco, foi um deles, e há muitos mais. Quando voltam e me pedem insistentemente para os receber no meu grupo, o meu espírito familiar proíbe-me que aceite alguns e permite-me que aceite outros; estes últimos tiram proveito, como da primeira vez. Aqueles que convivem comigo assemelham-se ainda num ponto às parturientes : sentem as dores do parto e experimentam, dia e noite, inquietações mais vivas que as das mulheres. Mas a minha arte é capaz de despertar essas dores e de as fazer cessar. Eis o que faço àqueles que convivem comigo. Alguns há, porém, Teeteto, cujas almas não me parecem prenhes; e, quando reconheço que não precisam de mim, intercedo por eles com todo o carinho, e, graças ao deus, descubro facilmente a quem devo confiá-los. É assim que tenho confiado muitos a Pródico e a outros homens sábios e divinos. Tenho-me alongado tanto nestas considerações, meu caro Teeteto, porque julgo, embora tu duvides, que a tua alma está prenhe e em trabalho de parto. Confia-te, pois, aos meus cuidados, lembrando-te de que sou filho duma parteira e hábil nesse ofício. Quando te fizer perguntas, procura responder o melhor que puderes; e se, depois de examinar a tua resposta, entender que é um fantasma sem realidade, e se o extirpar e deitar fora, não te aborreças comigo, como fazem as mulheres que são mães pela primeira vez. Tenho visto muitos, meu caro amigo, tão irritados contra mim que até eram capazes de me morder por lhes ter tirado qualquer opinião extravagante. Não compreendem que é por benevolência que o faço. Ignoram que nenhuma divindade quer mal aos homens e que eu também não procedo assim por má vontade, mas sim porque não me é permitido, de modo nenhum, aceitar o que é falso nem ocultar o que é verdadeiro. Voltemos, pois, ao princípio e procura dizer-me em que consiste a ciência. Nunca me digas que não és capaz, porque, se o deus quiser e te der coragem, consegui-lo-ás.

TEETETO - Na verdade, Sócrates, assim encorajado por ti, era uma vergonha não empregar todos os esforços para te dizer o que penso. Parece-me que todo aquele que sabe uma coisa sente aquilo que sabe e, segundo julgo neste momento, a, ciência não é mais do que a sensação.

Platão, Teeteto (trad. de A. Lobo Vilela), Lisboa: Seara Nova, 1947, pp. 25-30

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Night_Wolf says:

Ópa li o texto com atençao e tá fantastico!!!!!
Mas só keria dar-t um aviso!!!!!!!!!
Mas faças comentarios agora sobre o sócrates
porke isso ainda dá num boato e depois temos k os ouvir na televisão a dizer k é mentira!!!!!!
Eles tão em campanha politica e n deixam escapar nada!!
Vá fica bem um abraço

5 de fevereiro de 2005 às 16:56  

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