sexta-feira, fevereiro 11, 2005

Sherlock Holmes, 1890

Sherlock Holmes tirou o frasco do canto da prateleira do fogão e a seringa hipodérmica do seu arrumado estojo de marroquim. Com os seus dedos longos, braços, nervosos, ajustou a delicada agulha e arregaçou a manga esquerda da camisa. Durante alguns instantes fitou pensativamente o antebraço e o pulso, com tendões salientes e cheios de marcas e cicatrizes das inúmeras picadas. Por fim, espetou certeiramente a ponta aguçada, comprimindo o pequeno êmbolo e afundando-se nos estofos de veludo da cadeira de braços, soltando um longo suspiro de satisfação.

Três vezes por dia, desde há muitos meses, eu presenciava este acto, mas o hábito não levara o meu espírito a aceita-lo. Pelo contrário, de dia para dia aquela cena irritava-me cada vez mais, e pesava-me a consciência ao pensar que me faltara a coragem para protestar. Uma e outra vez jurara a mim próprio que desabafaria acerca do assunto; mas aquele ar calmo e indiferente do meu companheiro fazia dele a última pessoa com quem se desejaria ser inconveniente. As suas enormes faculdades, o ar magistral e a experiência que já tivera das suas muitas extraordinárias qualidades, tudo me fazia encarar com hesitação e reserva qualquer controvérsia.

Naquela tarde, contudo, não sei se por causa do Beaune que bebera ao almoço, se por estar mais exasperado devido á extrema premeditação da sua atitude, senti repentinamente que não me podia calar por maias tempo.

− Hoje o que é – perguntei −, morfina ou cocaína?

Levantou os olhos languidamente do velho livro que abrira.

− É cocaína – respondeu −, uma solução a sete por sento. Quer experimentar?

− Claro que não – respondi bruscamente. – O meu organismo ainda não recuperou a campanha afegã. Não me posso dar ao luxo de o submeter a um esforço suplementar.

Sorriu perante a minha veemência.

− Talvez tenha razão, Watson. Creio que a influência da cocaína é fisicamente prejudicial. Acho-a, no entanto tão transcendentemente estimulante e esclarecedora para o espírito que os seus efeitos secundários deixam de ter grande importância.

− Mas repare! – Disse eu seriamente. – Quantos inconvenientes! O seu cérebro, como afirma, pode ficar desperto e excitado, mas trata-se de um processo patológico e mórbido que envolve uma elevada substituição de tecidos e pode, pelo menos, provocar uma permanente fraqueza. Sabe também como é negativa a reacção posterior. Na verdade, o jogo é demasiado arriscado para valer a pena. Por que há-de, para obter um mero prazer passageiro, arriscar-se a perder as preciosas faculdades com que foi dotado? Lembre-se que falo não apenas como amigo, mas também como médico, tendo em conta que, de algum modo, sou responsável pela sua saúde.

(...)

− O meu espírito – disse – não suporta a estagnação. Dêem-me problemas, dêem-me trabalho, dêem-me o mais abstracto criptograma, ou a análise mais intrigante, e sinto-me na atmosfera que me é própria. Posso então dispensar estimulantes artificiais. Mas abomino a monótona rotina da existência (…).

Conan Doyle, Sir Arthur; Obras de Sir Arthur Conan Doyle: O Sinal Dos Quatro; Publicações Europa-America; pp. 9-11

1 Comments:

Blogger Amanda said...

pois... valerá a pena?!! todos sabemos a resposta. beijokas

11 de fevereiro de 2005 às 10:06  

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